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quarta-feira, 24 de julho de 2013

IGREJA CATÓLICA E SUAS DIVISÕES

É domingo, faz 24 graus em Itapecerica da Serra (SP), o Pe. Osmar de Carvalho atravessa a nave da Igreja com um incensário nas mãos, sobe ao altar e pede que os fieis se levantem para a prece inicial. Juntamente com o pároco, os 200 participantes pedem a Deus perdão por seus pecados e em seguida cantam Glória a Deus nas alturas. Após a primeira e a segunda leitura de trechos da Bíblia, os fieis são conduzidos ao altar para a celebração da Eucaristia. Homens, mulheres, adolescentes participam do pão e do vinho. Por fim, o padre invoca as bênçãos de Deus e despede-se da assembleia.

Essa poderia ser uma missa católica tradicional, não fosse o fato de que a Capela de São Miguel e Todos os Santos estivesse localizada no complexo da Fundação Centro Teosófico Raja (uma espécie de "Gnose Cristã") e fizesse parte também da Igreja Católica Liberal. Dirigida pelo Monsenhor Marcelo Rezende, a ICL foi fundada em 1916 (Londres) e afirma ser uma extensão da Igreja Vétero-Católica da Holonda, a qual se separou de Roma no século XIX por discordar da promulgação do dogma da Infabilidade Papal. No site da ICL Brasil, encontramos a seguinte informação.

"Pontos essenciais sobre a Igreja Católica Liberal

- Ela é uma Igreja Cristã, uma Comunidade de clérigos e fieis fundada em 1916 cuja sucessão apostólica, válida e reconhecida, deriva-se da Igreja Velho Católica da Holanda.

- Não é uma Obediência da Sé Romana nem uma Igreja Protestante, sendo autônoma e auto-governada.

- Reconhece a existência da Sabedoria Divina, a Teosofia, a pré-existência da Alma e sua evolução por meio de manifestações cíclicas no mundo, regidas pela lei de harmonia e justiça divinas..."

A ICL é apenas uma das milhares de denominações católicas independentes (cismáticas) existentes no mundo. No Brasil, pelo menos 70 denominações se dizem independentes administrativa e teologicamente da Igreja Católica Apostólica Romana.

A existência de igrejas e associações independentes do Vaticano (e isso sem mencionar as disputas internas, como as conhecidas entre tradicionais e carismáticos, adeptos do Opus Dei e jesuítas, conservadores contra liberais) põe em cheque uma vez por todas a teoria de que a ICAR seria "una" e a "verdadeira” Igreja de Cristo. Na verdade, é a ICAR a que mais possui placas e grupos cismáticos no mundo. Neste artigo veremos quem são, como e por que surgiram inúmeros grupos cismáticos a partir do Catolicismo Romano. Antes disso, convém conhecermos um pouco sobre a história da ICAR e os primeiros problemas enfrentados após 385 d.C.

Os primórdios da Igreja Católica Apostólica Romana

A ICAR cita o ano de 33 d.C. como a data de sua fundação. Isso se deve a ideia de que Pedro teria sido o "primeiro" papa a quem Jesus “entregou” as chaves dos céus e da terra. É a sucessão apostólica, invocada tanto pela Igreja Romana, como pelas igrejas católicas cismáticas. No prefácio do livro Crenças, religiões, igrejas & seitas: quem são? de Estevão Tavares Bittencourt, o Dom Antonio Afonso de Miranda faz a seguinte observação.

"Deus, sapientíssimo, não pode ser o autor de tantas religiões ou crenças. No mínimo, são ilusões ou enganos de interpretação da fé. Tendo Ele se revelado na "plenitude dos tempos" (Gl 4,4) em seu Filho Jesus Cristo, só o que Cristo transmitiu aos apóstolos e o que se herdou destes numa sucessão ininterrupta Igreja Católica tem foros de verdade revelada, portanto digna de fé". [1]

No mesmo prefácio, o autor faz uso também do cremos católico para validar a ideia de que a ICAR é a "verdadeira" e "única" Igreja de Cristo.

"8. Nossa fé católica tem, assim, um ponto fundamental de apoio: a sucessão apostólica. Para validade do ministério humano-divino exercido dentro da Igreja instituída por Cristo, deve haver um elo histórico de sucessão aos apóstolos; onde se rompeu este elo, cessou o ministério legítimo e a ligação com o Senhor que salva. É o caso das nossas irmãs igrejas ditas "cristãs", porém não-católicas, porque não são apostólicas.

9. Por isso, cremos que a união à Igreja Católica, efetivamente somente através da sucessão dos apóstolos, é garantia ordinária de remissão dos pecados, de vida em graça e penhor de salvação". [2]


Diferente do que afirma o Catolicismo Romano, a Igreja fundada por Jesus e posteriormente difundida por seus discípulos e apóstolos, jamais fez parte do catolicismo ou de qualquer outra ramificação posterior. Ou seja, é impossível estabelecermos qualquer conexão entre a ICAR (pelo menos na forma como se apresenta hoje) com a Igreja fundada por Jesus. Na verdade, não existe uma data específica que poderíamos indicar como o ponto inicial da ICAR, mas, sim, um processo gradual de paganização que culminaria com a formulação do que hoje conhecemos como Igreja Católica Apostólica Romana. No entanto, alguns autores propõem o ano de 385 d.C. como a data em que a Igreja começa a caminhar para o secularismo e paganismo. Nesse ano, o bispo Teodósio decretou o cristianismo como a religião "oficial" do Império Romano e ordenou que todos os pagãos se convertessem à nova religião. Como consequência, a Igreja (até então pura e cristã) entra em um processo acelerado de paganização, com a introdução de elementos do culto e das crenças pagãs e mitológicas.

A origem do termo "católica", aplicado à Igreja Romana

Sete anos antes do decreto de Teodósio, os bispos que se reuniram para o Primeiro Concílio de Constantinopla (381 d.C) deram à religião que se desenvolvia a designação de "católica". De origem grega, a palavra católica (καθολικος, lê-se katholikos) significa "geral" ou "universal". Era essa a primeira tentativa de "unificar" o cristianismo em torno de um organismo central.

Segundo um verbete da Wikipedia, o termo catolicismo é "usado geralmente para uma experiência específica do cristianismo compartilhada por cristãos que vivem em comunhão com a Igreja de Roma." É a partir do Primeiro Concílio de Constantinopla que começa a ser difundido o conceito de que a Igreja Católica é indivisível, ou seja, para ser cristão é necessário estar em comunhão com a Igreja de Roma. No Credo Niceno-Constantinopolitano ou Símbolo Niceno-Constantinopolitano, encontramos a seguinte confissão de fé:

"Creio na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica."

Para os católicos romanos, essa quádrupla descrição da Igreja a distingue de qualquer outra religião do mundo - porque, segundo creem, ela teve origem com Jesus e os primeiros apóstolos.

Os primeiros cismas na Igreja

Pouco tempo depois da formulação do Credo Niceno-Constantinopolitano, que dava a Igreja de Roma exclusividade na condução dos fieis, começam a surgir às primeiras cismas (divisões) na Igreja. Antes da divisão ocorrida em 1054, que veremos adiante e com mais detalhes, a Igreja se viu diante das primeiras contestações ao seu governo e/ou patriarcado, pondo por terra o conceito até então difundido de que a Igreja é "una".

Nestorianos

Encabeçado por Nestório (patriarca de Constantinopla de 428 a 431 d.C), os seguidores da doutrina segundo a qual afirmava que em Jesus havia dois "eus" ou "duas" pessoas: uma divina, com a sua natureza divina, e outra, humana, com a sua natureza humana, se rebelaram contra a Igreja após o Concílio de Éfeso (431 d.C)), formando o que seria o primeiro grupo cismático conhecido.

Boa parte das ideias de Nestório foram tomadas de Teodoro de Mopsuéstia, quando de seus estudos na Escola de Antioquia. Condenado em 431 por defender, entre outras coisas, que Maria não era mãe de Deus ("Cristotokos" mãe de Cristo, em oposição ao "Theotókos", mãe de Deus, na visão católica tradicional), se refugiou em um mosteiro onde viveu o resto da vida. Com o tempo, o Nestorianismo passou a ser a posição oficial da Igreja do Oriente. Apesar de alguns terem regressado à fé católica, um pequeno número de seguidores resistem em países como China, Índia, Irã e Estados Unidos. A Igreja Assíria do Oriente é a principal das remanescentes nestorianas.

Monofisistas

Alguns anos mais tarde, Eutyches de Alexandria propôs uma doutrina contrária à defendida por Nestório. Segundo ele, em Jesus haveria um só "eu" e uma só natureza (a divina), uma vez que a humanidade teria sido absorvida pela divindade. Enquanto seu oponente defendia a distinção das naturezas humana e divina (sendo duas naturezas e/ou pessoas diferentes) Eutyches afirmava a completa união das naturezas - daí a origem do termo "Monofisismo" (do grego μονο = único).
A ICAR concluiu que a doutrina de Eutyches seria ainda mais perigosa do que a de Nestório. Condenado como herege pelo bispo Eusébio de Dorileia e, posteriormente, pelo Concílio de Calcedônia (451), Eutyches enviou cartas a alguns dos principais bispos da Igreja e ao Papa Leão I, nas quais pedia ajuda. No entanto, a excomunhão lançada sobre ele foi considerada irrevogável.

Após a morte de Eutyches (em 456), a Imperatriz Eudóxia Aelia aderiu ao monofisismo e o fez conhecido na Pérsia. Outro que contribuiu para a divulgação da doutrina foi Jacob Baradaeus, que no século 6 incentivou a união das várias vertentes monofisistas, culminando com a criação da Igreja Ortodoxa Siríaca. Grupos similares existem ainda hoje no Egito, Etiópia, Síria e Armênia, constituindo uma massa de quase 5 milhões de adeptos.

Valdenses

No século XII, um movimento denominado "Valdense" (fundado por Pedro Valdo, comerciante de Lyon) foi perseguido pela Igreja por defender o direito de cada fiel de ter a Bíblia em sua própria língua. Por essa mesma época havia sido estabelecida - no Concílio de Verona (1186) - a "Santa Inquisição", razão pela qual os valdenses se reuniam em grutas ou na casa dos familiares.
Quando começou (por volta de 1180), Pedro Valdo vendeu seus bens, deu o dinheiro aos pobres e passou a viajar e pregar a Palavra. O que o inspirou à busca do conhecimento e da salvação em Cristo, foi a leitura de Mateus 19.21, texto esse apresentado por um teólogo que havia sido chamado às pressas para auxiliá-lo em sua busca da verdade.

Encantado com a mensagem do Evangelho e sabedor de que a ICAR determinava que a Bíblia fosse lida apenas em Latim, Pedro Valdo encomendou uma tradução da Bíblia para a linguagem popular. Acabou excomungado, mas suas ideias se espalharam: não jurar, recusar a pena de morte, a hierarquia da Igreja e a crença em purgatório, indulgências e veneração dos santos etc. [3]

Boa parte das ideias defendidas por Valdo foram reunidas na Confissão de 1120, considerada como a "mais antiga confissão de fé protestante". Apesar de algumas diferenças com os credos de Lutero e Calvino, a confissão valdense fazia uma explícita condenação da liturgia católica (artgs. 10 e 11), bem como os sacramentos (art. 8). Os valdenses consideravam como válidos apenas os sacramentos do batismo e ceia do Senhor.

Albigenses

Também conhecido como "Catarismo", o movimento dos albigenses surgiu por volta do século XII, em Albi (sul da França) e pregava a existência de um deus do bem, criador da alma, e de um deus do mal, criador do corpo. Proibia o casamento, para evitar a procriação e legitimava o suicídio.

Considerados como hereges pelo Concílio de Tours (1163), os albigenses foram duramente perseguidos pela Igreja. Em Minerva, 140 discípulos foram condenados à fogueira porque rejeitaram o catolicismo como religião “una” e “verdadeira”. Pelo menos 50 mil albigenses foram torturados e mortos pela cruzada conclamada pelo Papa Inocêncio III.

Orientais Ortodoxos: o grande cisma de 1054

A maior crise enfrentada pela ICAR se deu em 1054, ano em que a Igreja perdeu parte de seu domínio no Oriente. Por obra de Miguel Cerulário - que se tornou patriarca de Constantinopla em 1043 -, foi lançada sobre Roma a excomunhão. Isso ocorreu após a visita do cardeal Humberto, enviado a Constantinopla pelo Papa Leão IX, para resolver a polêmica da filioque – doutrina criada pelo Catolicismo Romano para descrever a relação do Espirito Santo com o Pai e o Filho, e que tinha a desaprovação de Cerulário. Ao tomar conhecimento da situação e vendo que não havia possibilidade de acordo, Humberto solicitou a excomunhão de Cerulário e de toda a Igreja Bizantina, que passou a ser conhecida como “Igreja Ortodoxa”.

As raízes do problema

O cisma entre ocidentais e orientais não ocorreu de maneira definitiva em 1054, mas vinha se arrastando desde 395 d.C. data em que o Império Romano se dividiu em dois: o romano, com sede em Roma, e o Oriental, com sede em Constantinopla (atual Istambul, Turquia). A partir de então, ocidentais e orientais iniciaram um processo gradual de afastamento, onde qualquer incidente – por mais insignificante que fosse – poderia ocasionar na ruptura defintiva dos impérios. Mesmo após a divisão do Império, os cristãos continuaram unidos pelos laços do catolicismo – embora que, na prática, existissem inúmeras diferenças entre as duas confissões. Apesar do esforço de alguns para manter a unidade – como no caso do teólogo Justiniano, que procurou unir o mundo oriental e ocidental pela religião - as diferenças aumentaram e, com elas, as suspeitas de ambos os lados. O que culminou com a ruptura definitiva.

Os principais motivos que levaram ao cisma

Além das disputas em torno do filioque, pelo menos três outros fatores contribuiram para o afastamento.

  1. Estevão Tavares Bettencourt cita como um dos principais motivos do afastamento, a distância entre as duas igrejas. “Além disso, falavam uns o grego e outros o latim; os costumes litúrgicos e a disciplina iam se diferenciando aos poucos. Ora, isso causou mal-entendidos e rivalidades crescentes entre cristãos bizantinos e cristãos latinos...” [4]
  2. A oposição dos papas ao cesaropapismo, ou seja, a intervenção do Estado (no caso, dos países orientais) nos negócios da Igreja. O termo “cesaropapismo” foi criado pelo jurista alemão Justus H. Boehmer (1674-1747)
  3. Em 726, Leão III, imperador do Oriente, preocupado com o avanço do islamismo, publicou um édito no qual proibia a adoração de imagens nas igrejas do oriente. A resposta de Roma viria pouco tempo depois. Em 23 de outubro de 787, a ICAR convocou o Segundo Concílio de Niceia, no qual foi definido que: “como a venerável e vivificante cruz, fossem levantadas as veneráveis e santas imagens… Quer dizer, as imagens do nosso Deus e salvador Jesus Cristo, da imaculada mãe de Deus, dos anjos principais, e de todos os santos e homens bons. Que essas imagens seriam tratadas como memórias santas, adoradas, beijadas, mas sem especial adoração que é reservada ao Eterno. Qualquer que violar esta provada tradição imemorial da igreja e procurar remover qualquer imagem à força, ou por astúcia, será deposto e excomungado, se for eclesiástico; se for monge ou leigo será excomungado”.

Divergências doutrinárias

Para que possamos compreender o foço existente entre cristãos bizantinos e latinos, é necessário conhecermos as treze principais divergências doutrinárias que caracterizam as confissões.

Igreja Católica

1. Defende a supremacia do Papa;

2. No Concílio Vaticano I (1870) foi aprovada a infabilidade papal, segundo a qual o Papa é infalível em matéria de fé e moral;

3. O Espírito Santo procede do Pai e
do Filho (Filioque);

4. O purgatório é um lugar de purificação e/ou um lugar onde os pecados são purgados;

5. Defende a “imaculada” concepção de Maria, ou seja, que ela foi concebida sem pecado;

6. Após cumprir sua missão na terra,
Maria ascendeu aos céus;

7. A tradição é mais importante
que as Escrituras Sagradas.

Igreja Ortodoxa

1. É contra a supremacia do Papa, sendo um dos motivos da cisma em 1054;

2. Declara que o Papa não é
infalível em matéria alguma;

3. O Espírito Santo procede apenas do Pai;

4. Desde 1232 rejeita o dogma
do purgatório póstumo;

5. Embora reconheça a pureza de Maria, declara que ela foi concebida em estado de pecado original;

6. Nega a ascenção de Maria;

7. A tradição e as Escrituras Sagradas possuem o mesmo valor como fonte de revelação.

Outros reformadores medievais

Além dos movimentos surgidos a partir do Catolicismo Romano, também merecem destaque alguns líderes que, apesar de não terem constituído um grande número de seguidores, contribuíram sobremaneira com a defesa do Evangelho de Cristo e combate aos erros da ICAR. São eles:

Tanchelme da Antuérpia

Quem foi: As poucas informações disponíveis sobre Tanchelm revelam que ele - antes de ser conhecido como reformador religioso do século XII - serviu como monge ao lado do conde Roberto II, de Flandres e, posteriormente, com o duque Godofredo de Bulhão, na Palestina. Deixou as atividades sacerdotais para se dedicar à pregação do Evangelho, começando em Antuérpia, mas também ficou conhecido em Brahant, Flandres e Zelândia. Foi assassinado em Antuérpia por um padre fanático, quando estava em um bote com alguns dos seus discípulos.

Mensagem: Em suas pregações, Tanchelme condenava a Igreja Católica, a nulidade de todas as dignidades hierárquicas da Igreja, do Papa até o mais baixo clero, que a eucaristia estava contaminada por mãos indignas e que os dízimos não deviam ser pagos. [5]

Pedro de Bruys

Quem foi: Também conhecido como Pierre de Bruys e Peter Bruis, não se sabe ao certo quando e onde nasceu. No entanto, para alguns pesquisadores ele teria nascido por volta de 1095 em Canton Rosans ou em Pelvoux (Hautes Alpes, França). Outros apontam Bruys como sendo à cidade natal de Pedro. Serviu por alguns anos como sacerdote na diocese de Embrun, mas teria sido afastado de sua função e excomungado da Igreja por causa de sua oposição ao clero. Começando pela cidade de Yallonire (por volta de 1106), por quase vinte anos se dedicaria à pregação e combate aos erros da Igreja. Foi perseguido pelos prelados de Embrun, Gap e Die, quando teve que fugir para Gasgone (um principado no sudoeste da França). Por volta de 1126 foi preso e queimado em Saint Gilles.

Mensagem: Condenou o batismo infantil, a missa, as orações pelos mortos, as autoridades da Igreja, a veneração da cruz e boa parte da Bíblia (principalmente o Antigo Testamento)

Henry de Lausanne

Quem foi: Como os demais reformadores dos séculos XI e XII, são poucas as informações disponíveis sobre Henry de Lausanne, exceto que ele teria sido ordenado a monge na Abadia de Cluny (Borgonha, França) e exercido a função em Lausanne. Por volta de 1116 teria abandonado a vida monástica e incitado o povo contra o clero superior de Le Mans. É provável que Henry tivesse sido influenciado pelas ideias de Pedro de Bruys.

Mensagem: Não reconhecia a autoridade dos sacerdotes, a ordem monástica, o batismo infantil, o pecado original e a invocação dos santos.

Arnaldo de Brescia

Quem foi: Arnaldo nasceu na cidade de Brescia, norte da Itália, por volta de 1105 e morreu em 1155, em Roma. Estudou aos pés de Abelardo, na França, e recebeu as duas primeiras ordens eclesiásticas aos trinta anos de idade. Serviu no mosteiro de Mônaco. Após suas primeiras contestações ao catolicismo, foi perseguido e considerado como cismático pela ICAR. Também é provável que Arnaldo tivesse sido influenciado pelas ideias de Pedro de Bruys.

Mensagem: Pregava que a Igreja não deveria ter posses temporais, nem jurisdição; que a Igreja deveria voltar à simplicidade primitiva; rejeitava os sacramentos (exceto batismo e ceia do Senhor), a adoração aos mortos, o sacrifício na missa (transubstanciação) e defendia um Estado laico (sem interferência da Igreja no Estado e vice-versa).

A Igreja e os grandes desafios do século XXI

Após as crises enfrentadas durante a Idade Média, Moderna e início da Contemporânea, a ICAR mais uma vez se vê diante de um novo dilema: como conter o avanço das igrejas católicas cismáticas? Embora não se saiba ao certo o número de igrejas independentes, o que se tem de concreto é que a Igreja está passando por um processo acelerado de desfragmentação. A ideia de que a ICAR é “una” e que são os evangélicos os que possuem inúmeras denominações e grupos cismáticos, já não mais pode ser sustentada diante dos fatos que chegam todos os dias da América, Europa e África.

O fantasma que persegue a Igreja hoje não é mais o mesmo da era medieval, quando o Tribunal da Inquisição tinha plenos poderes para julgar e condenar os “hereges”. Os inimigos mais temidos pela Igreja não provém do Oriente Médio ou África, mas sim do seu próprio seio. A cada dia surgem novas igrejas e associações lideradas por padres casados e que foram proibidos de exercer o sacerdócio por discordarem de certas posturas do Vaticano, como o celibato obrigatório, as campanhas contra o aborto e a eutanásia, o direito da mulher de exercer cargo na Igreja, a infabilidade papal etc. Algo que também tem gerado conflito são as denúncias de abuso sexual e homossexualismo no clero e a proteção dada pela Igreja aos infratores.

Movimentos de Reforma

Movimentos como “Manifestação da Igreja” (com sede na Suíça) e Nós Somos Igreja (com sede em Roma) realizam constantemente protestos contra o Papa e pedem a liberalização da ICAR. Esses movimentos não visam criar novas igrejas, mas reformar a Igreja de dentro para fora. Querem uma nova Igreja, mas não uma nova placa. Vejamos, por exemplo, o que diz o Movimento Internacional Nós Somos Igreja.

“O Movimento Internacional Nós Somos Igreja, fundada em Roma em 1996, está empenhada na renovação da Igreja Católica Romana a partir do Concílio Vaticano II (1962 – 1965) e do espírito teológico desenvolvido a partir dele.

Nós Somos Igreja evoluiu do referendo Igreja na Áustria em 1995, iniciada após o escândalo de pedofilia em torno do cardeal Viena Groer. Estamos presentes em mais de vinte países.
Como os estudos de renomados sociólogos internacionais têm provado, Nós Somos Igreja é um movimento de reforma dentro da Igreja como a “voz do povo nos bancos...”

Tal é o objetivo do movimento Manifestação da Igreja, que no dia 8 de março de 2009 reuniu cerca de 1.500 pessoas em um protesto pelas ruas de Lucerna, Suíça, cujo lema “Entrar, em vez de sair” dirigiu-se a uma “Igreja dogmática, estreita, autoritária e estranha ao mundo”.

Movimentos Independentes

Outras não menos carismáticas partiram para a guerra total contra a IACR, como as Redes de Missões Católicas, a Igreja Católica Brasileira, a Igreja Católica Americana, a Igreja Católica Polonesa etc. que afirmam serem movimentos independentes de Roma, mas que “possuem” a validade apostólica.

Declarações

Vejamos algumas declarações que provam de maneira enfática o que estamos tentando provar aqui.

Igreja Católica Brasileira

“A Igreja Católica Brasileira é uma instituição religiosa, cismática (discordância de opiniões) da Igreja Católica Apostólica Romana, fundada em 6 de julho de 1945, por Dom Carlos Duarte Costa”.

Rede de Missões Católicas

“É um movimento da fusão de alguns grupos católicos não romanos, iniciado em 1980 e que unia padres e missionários de várias igrejas e até de alguns evangélicos. O mais conhecido deste movimento é o padre Jair Pereira. Tornou-se famoso pelo programa de rádio e TV “Hora da Eucaristia”.

Igreja Católica Americana

“Não estamos sob a jurisdição da Igreja Católica Romana e, como tal, não estamos sujeitos às suas leis e regulamentos”.

Igreja Católica Breakaway

“Os católicos não em comunhão com Roma.. embora conscientemente abrace a tradição católica, tem optado por se separar de Roma”.

Igreja Mariavete

“É uma organização independente cristã que surgiu da Igreja Católica da Polônia, na virada do século 20”.

Essas são apenas algumas das inúmeras igrejas e associações não – romanas, ou seja, não submetidas ao Vaticano. Poderíamos citar outras, tais como:

a) Com sede no Brasil. Igreja Católica Apostólica Carismática, Igreja Católica Apostólica Cristã, Igreja Católica Apostólica de Jerusalém, Igreja Católica Apostólica Ecumênica Contemporânea, Igreja Católica Apostólica Nacional, Igreja Católica Apostólica Tributária, Igreja Católica Ecumênica Renovada, Igreja Católica Apostólica Heterodoxa etc.

b) Com sede nos Estados Unidos: Paróquia Católica Nacional, Santa Perpétua y Felicidad Iglesia Católica, Divino Niño Santuário de Jesus, Igreja Rey de Reyes, Igreja Cristã Apostólica norte-americana, Igreja Católica de Cristo, Igreja Católica Ecumênica Americana.

c) Com sede no México: Igreja Católica Mexicana, Igreja Mexicana de Jesus, Igreja Católica de Nosso Senhor Jesus Cristo, Igreja Católica Apostólica Santo de Melo, Igreja Católica Apostólica Santo do México

A Maria Legio

No oeste do Quênia existe um movimento conhecido como Maria Legio (do latim “Legião de Maria”), fundado pela profetisa Luo Gaudencia Aoko e pelo profeta messiânico Blasio Simeo Malkio Ondetto. Segundo a Wikipédia em inglês, ambos foram excomungados pela Igreja Católica Romana em 1960 (eles pertenciam à diocese de Kissi, no distrito de South Nyanza).

Quando começou (em 1963), a Maria Legio possuía em torno de 90 mil adeptos. Em 1980 o número chegou a 248.000 mil. Segundo estimativas do governo queniano, atualmente existem cerca de 400.000 mil seguidores da Maria Legio. A sede fica na aldeia de Got Kwer, localizada a 15 km de Migori, Nyanza. Possui estrutura eclesiástica própria e o seu atual papa é o queniano Raphael Tito Otieno.

Ainda segundo a Wikipédia, a Maria Legio não é a única Igreja cismática do Quênia. Somente em 1966 foi registrada a existência de 160 igrejas independentes e com cerca de 600.000 mil seguidores.

O movimento dos padres casados

Uma das principais razões do surgimento de inúmeras igrejas cismáticas ao redor do mundo é o número cada vez maior de sacerdotes que saem ou são expulsos da ICAR por defenderem a não-obrigatoriedade do celibato. Segundo a Confederação Internacional de Padres casados, há pelo menos 150.000 padres casados nos cinco continentes. No Brasil, são em torno de 5 mil. A Associação Rumos é a principal representante da categoria no Brasil. Ela se define da seguinte maneira:

“A Associação Rumos foi fundada em 16 de Agosto de 1986, na cidade de Brasília, Distrito Federal, para congregar os padres, oriundos do clero da Igreja Católica Romana no Brasil, que deixaram o exercício do ministério sacerdotal para casar. É uma sociedade civil de direito privado, de âmbito nacional, com finalidades assistenciais, filantrópicas, culturais e educacionais, sem fins lucrativos, com sede e foro em Brasília.

Representa os mais de cinco mil padres casados do Brasil e suas famílias, que formam o Movimento das Famílias dos Padres Casados (MFPC). A Associação Rumos foi criada para servir ao MFPC como personalidade jurídica, estrutura e objetivos determinados, de acordo com as exigências legais do país.

Sendo assim, a Associação Rumos tem como objetivo ser o suporte jurídico e financeiro do Movimento das Famílias dos Padres Casados – MFPC, além de promover a mútua ajuda entre os associados, contribuindo para a sua realização pessoal, familiar, profissional e religiosa, cultivando a amizade entre os padres egressos do ministério e suas famílias.” [10]

Assim como a Rumos, inúmeras outras associações atuam em diversas partes do mundo na defesa da não - obrigatoriedade do celibato e são apoiadas por igrejas como a Igreja Católica Americana, a Igreja Católica Polaca e movimentos de reforma da ICAR. Entre as associações mais conhecidas, destacamos quatro.

1. Associação dos sacerdotes e suas esposas (Alemanha)
2. Movimento Pró-Celibato Opcional (Espanha)
3. Ora ET Labora (Itália)
4. Associação Fraternitas Movimento (Portugal)

O caso do Padre Oprah

Nos Estados Unidos, o padre Alberto Cutié – popularmente conhecido como Padre Oprah -, desligou-se da Igreja Católica Romana e passou a exercer o sacerdócio na Igreja Episcopal após ter sido pego com uma mulher. Segundo o New York Times, fotografias divulgadas em um tablóide de língua espanhola revelaram um sacerdote de 40 anos, deitado ao lado de uma mulher de cabelos escuros em uma praia da Flórida. O caso serviu para que reacendesse o debate em torno do celibato obrigatório. [7]

Autor de vários livros e apresentador do programa “Padre Alberto”, Cutié ficou conhecido como “Padre Oprah” por causa de seus conselhos sobre amor e relacionamento. Em entrevista a uma emissora de TV de Miami, defendeu que os padres deveriam se casar por ser essa uma opção mais saudável. De origem porto-riquenha, mas criado em Miami, Cutié optou pela vida sacerdotal aos 18 anos de idade.

Uma Igreja e várias faces

Pelo o que vimos e provamos no texto acima, a Igreja Católica Apostólica Romana não é nenhum exemplo de “unidade” e/ou “comunhão” de irmãos. Contrariando o Credo Niceno-Constantinopolitano, a Igreja está dividida em inúmeras ramificações e enfrenta movimentos de reforma em seu próprio seio, que podem resultar em novas igrejas ou movimentos independentes.

As denúncias de pedofília e homossexualismo no clero, somado ao crescente número de padres que são expulsos da Igreja por optarem pela não-obrigatoriedade do celibato, são também exemplos de que a ICAR não é nem de longe um movimento “sadio” ou “unificado”.

Também há os casos de brigas internas, como acontece entre jesuítas e adeptos do Opus Dei. Na década de 1940, alguns jesuítas, liderados pelo teólogo Angel Carrilo de Albornoz, denunciaram o Opus Dei por “ensinar uma nova heresia”. Daí em diante, tradicionalistas e conservadores seguiram o exemplo ao denunciar o avanço do movimento carismático e da Teologia da Libertação. São alguns exemplos do que acontece por trás daquela que se diz a “única” e “verdadeira” Igreja de Cristo.

Referências Bibliográficas

1. Crenças, religiões, igrejas & seitas: quem são? Estevão Tavares Bittencourt, pág. 11
2. Ibidem, pág. 12
3. Toda a História, José Jobson de Arruda e Nelson Piletti, pág. 115, Ed. Ática
4. Crenças, religiões, igrejas & seitas: quem são? Estevão Tavares Bittencourt, pág. 16
5. Investigando os Arquivos secretos da Inquisição
6. fratresinunum.com
7. http://www.nytimes.com/2009/05/07/us/07priest.html?ref=us



Johnny T. Bernardo

é apologista, escritor, jornalista, colaborador da revista Apologética Cristã e fundador do INPR Brasil (Instituto de Pesquisas Religiosas). Há mais de dez anos se dedica ao estudo de seitas e heresias, sendo um dos seus campos de atuação a fenomenologia religiosa e religiosidade brasileira.

É também o autor da matéria “Igreja Dividida, as fragmentações do Catolicismo Romano”, publicada no final de 2010 pela Revista Apologética Cristã (M.A.S Editora). Assina também a coluna Giro da Fé da referida revista.

Contato

pesquisasreligiosas@gmail.com
johnnypublicidade@yahoo.com.br

terça-feira, 23 de julho de 2013

O PAPA - SOBRE ESTA PEDRA

Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Então, Jesus lhe afirmou: ...tu és Pedro [petros] e sobre esta pedra [petra] edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. – Mateus 16.16-18
Apascenta os meus cordeiros... Pastoreia as minhas ovelhas... Apascenta as minhas ovelhas”. – João 21.15-17
Após a confissão de fé de Pedro, ele [Cristo] determinou que sobre ele construiria a sua Igreja; a ele prometeu as chaves do reino dos céus... – Vaticano II [1]
Um papa infalível como sucessor de Pedro, que tem as chaves do reino do céu, sendo o vigário de Cristo? Antes foi a declaração arrogante de que a pompa e os poderes foram herdados de Constantino. Hoje afirma-se que a declaração de Cristo a Pedro fez dele o primeiro papa, a pedra sobre a qual “a única Igreja verdadeira” foi construída, e todos os que o seguiram nesse ofício têm sido seus sucessores, não importa a violência e as fraudes que usaram para consegui-lo, nem suas atitudes malignas. A autoridade que o papa possui hoje e a religião católica que ele lidera estão ancoradas sobre essa afirmação.
O papa é a Igreja Católica. Sem ele a Igreja não poderia funcionar e nem mesmo existir. Por isso é importante estudarmos esse assunto mais a fundo. Pouco importa o que o fiel católico comum pense ou faça. Mas as doutrinas e os feitos da hierarquia e principalmente dos papas continuam controlando a Igreja. É aí que o nosso foco deve estar, não na opinião de alguns católicos que dizem não acreditar na metade do que a Igreja ensina. (Essas pessoas não deveria se chamar “católicas”. Por que confiar numa Igreja para obter a salvação eterna se ela nem é digna de confiança em assuntos menos importantes?)
E que dizer da declaração de Cristo a Pedro: “sobre esta pedra edificarei a minha igreja?”(Mateus 16.18). Os protestantes argumentam que existe um jogo de palavras no verso chave acima. No grego, “Pedro” é petros, uma pedrinha, enquanto “pedra” no grego é uma petra,como a rocha de Gibraltar, por exemplo. Uma petra tão imensa obviamente só poderia ser o próprio Cristo e a confissão de que Jesus é o Cristo, que Pedro acabara de fazer.
Os apologistas católicos modernos respondem que Cristo estava provavelmente falando em aramaico, o que elimina o jogo de palavras e deixa Pedro como a pedra sobre a qual a Igreja foi edificada. Essa posição, contudo, certamente nega uma das doutrinas básicas do catolicismo romano, a profissão de fé tridentina. Ela exige que todos os clérigos, a partir do papa Pio IV (1559-1565), aceitem a interpretação das Sagradas Escrituras somente de acordo com o consenso unânime dos Pais [da Igreja].

O Testemunho dos Pais da Igreja


Os Pais da Igreja Católica Romana posicionaram-se unanimemente contra a interpretação católica atual. E é Von Dollinger (foto), um católico devoto, uma autoridade da história eclesiástica e que ama a sua Igreja, quem aponta para esses fatos.
Como os “Pais da Igreja” (líderes da Igreja até o papa Gregório, o Grande, que morreu em 604) interpretam esta passagem? Acontece que neste assunto em particular eles são unânimes em concordar com a posição dos protestantes. Nenhum deles interpreta essa passagem como os católicos são ensinados a entendê-la atualmente.
Para estar de acordo com o ensino unânime dos Pais da Igreja, um católico teria de rejeitar o dogma de que Pedro foi o primeiro papa, que ele era infalível e que transmitiu sua autoridade a sucessores. O historiador e católico devoto Von Dollinger lembra fatos inegáveis:
De todos os Pais que interpretam estas passagens nos Evangelhos (Mateus 16.18, João 21.17), nenhum as aplica ao bispo de Roma como sucessor de Pedro.Quantos Pais se ocuparam com estes textos, mas nenhum daqueles cujos comentários possuímos – Orígenes, Crisóstomo, Hilário, Agostinho, Cirilo, Teodoro e aqueles cujas interpretações são coletadas às centenas – têm sequer insinuado que o primado de Roma é a conseqüência da comissão e promessa feita a Pedro!
Nenhum deles explicou que a pedra ou fundamento sobre o qual Cristo construiria a sua Igreja seria o ofício dado a Pedro que devia ser transmitido aos seus sucessores, mas entenderam que se tratava do próprio Cristo ou da confissão de fé de Pedro sobre Cristo; muitas vezes afirmando que eram as duas coisas juntas.[2]
Em outras palavras, ao contrário do que a maioria dos católicos tem aprendido, os Pais da Igreja Católica Romana posicionaram-se unanimemente contra a interpretação católica atual. E é um católico devoto, uma autoridade da história eclesiástica e que ama a sua Igreja, quem aponta para esses fatos.
Outros historiadores católicos concordam com Von Dollinger. Peter de Rosa, também católico devoto, habilmente contesta a supremacia e a linha contínua de sucessão papal desde Pedro:
Pode ser um choque para eles [católicos] saber que os grandes Pais da Igreja não viam conexão alguma entre a declaração [Mateus 16.18] e o papa. Nenhum deles aplica “Tu és Pedro” a alguém mais senão a Pedro. Um após outro, todos analisaram-na: Cipriano, Orígenes, Cirilo, Hilário, Jerônimo, Ambrósio, Agostinho. E eles não são protestantes.
Nenhum deles chama o bispo de Roma de “pedra” ou aplica especificamente a ele a promessa das chaves do reino. Isso é tão surpreendente para os católicos, como se eles não pudessem encontrar menção alguma dos Pais sobre o Espírito Santo e a ressurreição dos mortos...
Para os Pais é a fé de Pedro – ou o Senhor em quem Pedro deposita sua fé – que é chamado de “pedra” e não Pedro. Todos os concílios da Igreja, de Nicéia, no século IV, ao de Constância, no século XV, concordam que o próprio Cristo é o único fundamento da Igreja, isto é, a pedra sobre a qual a Igreja se sustém.
...nenhum dos Pais fala de uma transferência de poder de Pedro aos que o sucederam ...Não há indicação alguma de um ofício petrino permanente.
Então a Igreja primitiva não olhava para Pedro como bispo de Roma, nem, por conseguinte, pensava que todo bispo de Roma seria o seu sucessor... Os evangelhos não criaram o papado; porém o papado buscou apoio nos Evangelhos [mesmo que isso não seja possível].[3]
O fato dos papas durante séculos terem se baseado em documentos fraudulentos (A Doação de Constantino e os Falsos Decretos) para justificar sua pompa e poder, mesmo após terem sido expostos como deliberadas falsificações, mostra como esses “vigários de Cristo” não apreciavam a verdade. Também nos mostram que naqueles dias os papas não baseavam suas justificativas para a sua autoridade papal e a suposta sucessão apostólica desde Pedro em Mateus 16.18. Se isso ocorresse eles não precisariam de documentos falsos para autenticar sua posição. Tal aplicação para as palavras “Tu és Pedro” foi inventada muito mais tarde.

Quem é a Pedra?

A verdade sobre o assunto não depende da questionada interpretação de alguns versículos, mas sim da totalidade das Escrituras. O próprio Deus é claramente descrito como a “pedra” ou “rocha” infalível de nossa salvação através de todo o Antigo Testamento. (Deuteronômio 32.3,4; Salmo 62.1,2, etc.). Na verdade a Bíblia declara que Deus é a única pedra: “Pois quem é Deus, senão o SENHOR? E quem é rochedo, senão o nosso Deus?” (Salmo 18.31).
O Novo Testamento torna igualmente claro que Jesus Cristo é a pedra sobre a qual a Igreja é construída, e que Ele, sendo Deus e um com o Pai, é, portanto, a Pedra. Cristo e Seus ensinamentos (Mateus 7.24-29) são rocha onde o “homem prudente edifica a sua casa”, e não Pedro. O próprio apóstolo Pedro frisa que Cristo é a “pedra angular” sobre a qual a Igreja é construída (1 Pedro 2.6-8). E ele cita uma passagem do Antigo Testamento para enfatizar isso.
Paulo, do mesmo modo, chama Cristo “a pedra angular” da Igreja e declara que a Igreja também é edificada “sobre o fundamento dos [todos] apóstolos e profetas” (Efésios 2.20). Esta declaração nega claramente que Pedro tenha uma posição especial no fundamento da Igreja.

Pedro Não Recebeu Promessa Alguma


Os Pais da Igreja nem ao menos puderam reconhecer no poder das chaves, e no poder de ligar e desligar, qualquer prerrogativa ou senhorio do bispo de Roma.
Quando Cristo deu a Pedro “as chaves do reino dos Céus” (Mateus 16.19), Ele explicou o que aquilo significava: “o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus”. A mesma promessa foi renovada a todos os discípulos em Mateus 18.18, assim como em João 20.23, com a especial aplicação, neste contexto, ao perdão de pecados.
A chave para ligar e desligar e remir ou reter pecados foi claramente dada a todos, não só a Pedro. Portanto, não é certo afirmar que Pedro tinha poder e autoridade especial sobre os demais apóstolos. Tal conceito não se encontra em parte alguma do Novo Testamento e era desconhecido mesmo para a Igreja Católica Romana até alguns séculos mais tarde. A Pedro foi dado o privilégio especial de pregar o Evangelho, primeiro aos judeus (Atos 2.14-41) e depois aos gentios (Atos 10.34-48), mas ele não recebeu nenhuma autoridade especial.
Os apologistas católicos alegam que as palavras de Cristo a Pedro em João 21.15-47 (“apascenta meus cordeiros”, “pastoreia as minhas ovelhas”) deu-lhe autoridade única. Pelo contrário, o próprio Pedro aplicou esse mandamento a todos os anciãos (1 Pedro 5.2) do mesmo modo que Paulo fez (Atos 20.28). Novamente é Von Dollinger quem nos informa:
Nenhuma das antigas confissões de fé, nenhum catecismo, nenhum dos escritos patrísticos, que visavam instruir o povo, contém uma sílaba sequer sobre o papa, nem sequer uma indicação mínima sobre o fato de toda certeza da fé e doutrina depender dele...
Os Pais da Igreja nem ao menos puderam reconhecer no poder das chaves, e no poder de ligar e desligar, qualquer prerrogativa ou senhorio do bispo de Roma, tanto mais que – o que à primeira vista fica óbvio para qualquer um – eles não viram um poder dado primeiramente a Pedro, e em seguida repetindo precisamente as mesmas palavras a todos os apóstolos, como algo que fosse peculiar a ele, ou uma herança para a linhagem dos bispos de Roma, e eles usavam o símbolo das chaves significando exatamente o mesmo que a expressão figurada de ligar e desligar...
O poder das chaves ou de ligar e desligar, foi universalmente reconhecido como pertencente a outros bispos, tanto quanto ao bispo de Roma.[4]

Nenhum Poder Especial Foi Dado a Pedro

A autoridade especial que tem sido alegada pelos papas católicos romanos, que afirmam ser os supostos sucessores de Pedro, jamais foi exercida por Pedro. Em suas epístolas o apóstolo exorta seus iguais; não dá ordens a subordinados. “Aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles...” (1 Pedro 5.1). Ele não oferece base em seus escritos para nenhuma posição ou poder eclesiástico oficial e exaltado. Pedro declara ser simplesmente “testemunha dos sofrimentos de Cristo” (1 Pedro 5.1) junto com todos os apóstolos, que foram “testemunhas oculares da sua majestade” (2 Pedro 1.16). Ele não faz uma única afirmação em seu favor, simplesmente se coloca entre os outros apóstolos.
A reunião de “apóstolos e anciãos” em Jerusalém por volta de 45-60 d.C. descrita em Atos 15.4-29 foi organizada por iniciativa de Paulo, não de Pedro. (Não foi “o primeiro Concílio da Igreja”, como alguns afirmam. Não havia hierarquia na Igreja, nenhuma delegação de fora, todos os presentes residiam em Jerusalém.) Além do mais, foi Tiago, e não Pedro, quem parece ter tomado a liderança. Conquanto Pedro tenha feito uma declaração importante, ela não foi doutrinária, sendo apenas um resumo de sua experiência ao levar o Evangelho primeiro aos gentios. Tiago, contudo, discorreu sobre as Escrituras e argumentou sobre um ponto de vista doutrinário. Além do mais, foi Tiago quem disse: “Pelo que julgo eu... [meu veredito é]” (Atos 15.19) e sua declaração tornou-se a base da carta oficial enviada a Antioquia.
Não há evidências de que Pedro tenha intimidado os outros, mas Tiago o intimidou. O temor de Tiago e sua influência e liderança levaram Pedro a se voltar à tradicional separação dos gentios. Como resultado, Paulo, que escreveu muito mais do Novo Testamento do que Pedro, e cujo ministério foi muito mais abrangente, censurou Pedro publicamente por seu erro (Gálatas 2.11-14). Certamente Pedro não agia como papa, nem era tratado assim pelos outros.

Os Verdadeiros Sucessores dos Apóstolos

Cristo mandou que os apóstolos fizessem discípulos através da pregação do Evangelho. Ele acrescentou que cada pessoa que cresse no Evangelho deveria ser ensinada a obedecer a todas as coisas que Ele havia ensinado. A declaração: “ensinando-os [aos discípulos que se converterão] a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado” (Mateus 28.20), não pode ser atribuída exclusivamente a uma liderança hierárquica. Esperava-se que todos aqueles que se tornaram discípulos de Cristo através da pregação dos discípulos originais obedecessem a tudo que Cristo havia ordenado aos apóstolos. Para que pudessem fazer tudo que os 11 foram comissionados, cada discípulo comum precisava ter a mesma autoridade e o mesmo poder procedentes de Cristo que os apóstolos tinham.
Quaisquer que tenham sido os mandamentos e poderes que os apóstolos receberam de Cristo, eles foram passados a todos os que creram no Evangelho (ou seja, seus próprios discípulos), os quais, por sua vez, ensinaram esses mandamentos aos seus conversos, e assim por diante, até o presente. Portanto fica evidente que não somente uma classe especial de bispos, arcebispos, cardeais, papas ou um Magistério, são sucessores dos apóstolos, mas todos os cristãos.
A história da Igreja primitiva apresentada no Novo Testamento diz isso. Os apóstolos obedeceram ao que Cristo mandou: fizeram discípulos aos milhares e ensinaram a eles todos os mandamentos de Cristo; e o próprio Cristo, do céu, capacitava seus novos discípulos para desempenharem esta grande comissão. Os cristãos se multiplicaram e as igrejas foram estabelecidas em todo o Império Romano.

Não havia catedrais. A igreja local se reunia nas casas.
Não havia catedrais. A igreja local se reunia nas casas. Sua liderança era um grupo de anciãos piedosos, mais velhos e maduros na fé e que viviam vidas exemplares. Não havia hierarquia, nem local ou tampouco sobre um território maior, que tivesse de ser obedecida por causa de seu ofício ou título. Não havia classe seleta de sacerdotes que possuísse autoridade especial para agir como intermediária entre Deus e o povo. Isso se aplicava ao sacerdócio judaico, que era uma sombra das coisas que haveriam de vir (Hebreus 7.11-28; 10.1-22) mas tornou-se terrivelmente corrupto e teve seu fim no sacrifício feito na cruz.
Todos os crentes foram encorajados a orar e profetizar nas reuniões da Igreja. Paulo deixou isto bem claro: “Quando vos reunis [como Igreja], um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação. No caso de alguém falar em outra língua, que não sejam mais do que dois, ou quando muito três, e isto sucessivamente, e haja quem interprete... Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros julguem. Se, porém, vier revelação a outrem que esteja assentado, cale-se o primeiro [a fim de que o outro fale]. Porque todos podereis profetizar um após outro, para todos aprenderem e serem consolados... Portanto, meus irmãos, procurai com zelo o dom de profetizar e não proibais o falar em outras línguas” (1 Coríntios 14.26-40).

Não Havia uma Classe de Elite

Nenhuma das promessas de Cristo aos apóstolos foi somente para eles ou para uma classe de elite. Por exemplo: “Se dois dentre vós, sobre a terra, concordarem a respeito de qualquer coisa, que, porventura, pedirem, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos céus” (Mateus 18.19). “Tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei...” (João 14.13) e novamente: “Se pedirdes alguma coisa ao Pai, ele vo-la concederá em meu nome” (João 16.23). Todos os cristãos que crêem na Bíblia oram em nome de Cristo, embora a promessa tenha sido dada ao Seu círculo íntimo de apóstolos. Todos os católicos tomam o pão e o vinho na missa, mesmo que Cristo tenha dito a todos os apóstolos: “Fazei isto em memória de mim” (Lucas 22.19).
Está claro que tudo o que Cristo determinou a seus amigos mais chegados se aplicava a todos os convertidos e a todos os cristãos de hoje. Isso quer dizer que se dois cristãos concordarem sobre alguma coisa em oração esta lhes será concedida, ou que tudo o que um cristão pedir ao Pai, em nome de Cristo, lhe será dado? Sim. Então, por que nem toda oração é respondida? Todas elas são respondidas, mas para algumas a resposta é “não” e para outras, “mais tarde”. O “nome” de Cristo não é uma fórmula mágica, que, se adicionada à oração, assegura uma resposta automática positiva. Pedir em Seu nome significa pedir como Ele pediria, para Sua honra e glória, não para a nossa.
Nesse ponto a Igreja tem decepcionado tremendamente os católicos sinceros. Cada oração que um padre católico faz não é respondida automaticamente mais do que aquelas feitas pelos católicos comuns, ministros protestantes ou leigos. Isso é obvio. Ainda assim diz-se que um membro do clero católico tem um poder especial sobre qualquer coisa que ele pronunciar usando o nome de Cristo – o que for ligado ou desligado, ou o perdão de pecados – ocorre automaticamente. Não é assim. É desonesto dizer que o desligamento do pecado (que não pode ser verificado) ocorre a cada vez que o sacerdote o pronuncia, se desligar da doença ou do débito (algo que pode ser verificado) raramente acontece quando ele pronuncia o desligamento.
A implicação é clara: qualquer coisa que se obtenha através da oração ao Pai em nome de Cristo, ou qualquer graça obtida quando dois cristãos concordam, ligar e desligar ou perdoar pecados, não acontecem automaticamente, pela mera expressão de uma fórmula, mas é feito somente através de Cristo trabalhando por meio de vasos escolhidos, quando, onde e como Lhe agrada.
Nenhuma dessas promessas era cumprida automaticamente, sob a direção única de Pedro ou qualquer um dos outros apóstolos. Nem são concedidas instantaneamente a um membro da Igreja Católica Romana ou de qualquer hierarquia religiosa. Esses dogmas falsos têm posto aqueles que acreditam neles sob o poder de Roma, levando-os a procurar num sacerdote aquilo que é a herança de todo discípulo verdadeiro de Cristo.

 Os Tiranos do Passado e o Magistério de Hoje

O grande apóstolo Paulo escreveu que desde que os governantes civis não ordenem algo contrário à vontade Deus, todo cristão, inclusive os próprios apóstolos, devem obedecer suas ordens (Romanos 13.1-7). Devemos orar “pelos reis e por todos os que estãoinvestidos de autoridade” (1 Timóteo 2.1-3). Todos os cristãos devem estar sujeitos “aos que governam, às autoridades...” (Tito 3.1).

A submissão total que Roma exige tem sido expressa por muitos papas, mas nenhum deles as expressou mais claramente do que Nicolau I (858-867).
Paulo escreveu aos cristãos: “Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, quer seja ao rei como soberano, quer às autoridades como enviadas por ele...” (1 Pedro 3.13-14). Os papas ensinaram exatamente o contrário: que eles eram os supremos soberanos e que somente suas leis deveriam ser obedecidas, inclusive pelos reis. A submissão total que Roma exige tem sido expressa por muitos papas, mas nenhum deles as expressou mais claramente do que Nicolau I (858-867):
É evidente que os papas não podem estar ligados nem tampouco sujeitos aos poderes terrenos, nem mesmo aos do apóstolo [Pedro], se ele voltasse à terra; desde que Constantino, o Grande, reconheceu que os pontífices representam o poder de Deus na terra, a divindade não pode ser julgada por nenhum homem. Somos, portanto, infalíveis, e quaisquer que sejam nossos atos, não precisamos prestar contas deles a ninguém mais do que a nós mesmos.[5]
Fica claro, tanto na história como nos dogmas oficias da Igreja ainda vigentes, que Nicolau não estava expressando apenas o seu fanatismo, mas a visão de todos os papas, que acabou se tornando a doutrina católica. Conforme o Vaticano II, a ninguém é permitido sequer questionar o Magistério em assuntos de fé e moral. Somente a hierarquia pode interpretar a Bíblia, e os fiéis devem aceitar essa interpretação como se fosse vinda do próprio Deus. Todos devem obedecer ao papa, mesmo quando ele não fala ex catedra. Tais exigências de fé cega são vestígios atuais da atuação tirânica dos papas através dos séculos.

O Fracasso do “Primeiro Papa”

Se as palavras de Cristo a Pedro em Mateus 16.18 fizeram dele o primeiro papa infalível, então temos outro problema sério. As palavras seguintes na boca de Pedro negam o cerne do Evangelho cristão ao declarar que Cristo não precisava ir até a cruz: “...Tem compaixão de ti, Senhor; isso [a morte na cruz] de modo algum te acontecerá” (Mateus 16.22). Ao que o Senhor respondeu imediatamente: “Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das obras dos homens” (Mateus 16.23). Esta foi a primeira declaração ex catedra de Pedro a toda a Igreja (conforme registra a Bíblia) em matéria de fé e moral (ela tem a ver com o meio de salvação) – e não era infalível, mas pura heresia!
No próximo capítulo Pedro comete um erro sério, com outro pronunciamento herético. Ele coloca Cristo no mesmo nível de Moisés e Elias: “Senhor, bom é estarmos aqui; se queres, farei aqui três tendas; uma será tua, outra para Moisés, outra para Elias” (Mateus 17.4).Desta vez é o próprio Deus quem censura, do céu, o “novo papa”: “Este é o meu Filho amado em quem me comprazo; a ele ouvi” (v. 5).
Mais tarde, temendo por sua vida, Pedro nega, pragueja e jura não conhecer Jesus – novamente uma declaração de “fé e moral” a toda a Igreja que nega o próprio Cristo. Mesmo se os papas fossem seus sucessores, Pedro dificilmente poderia ter-lhes passado uma infalibilidade que, obviamente, não possuía.

Base Bíblica para a Infalibilidade?

Hans Küng, teólogo católico contemporâneo, disse: “A principal prova citada pelo Vaticano I para a infalibilidade papal, Lucas 22.32 (“Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça”), jamais foi usada, nem mesmo pelos canonistas medievais, para documentar esse dogma – o que é correto. Nessa passagem Jesus não prometeu a Pedro que este não erraria mais, porém deu-lhe a graça de perseverar na fé até o fim”.[6] Von Dollinger concorda plenamente:
Todos conhecem a clássica passagem da Escritura sobre a qual o edifício da infalibilidade papal tem se escorado “Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça, tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos” (Lucas 22.32). Essas palavras referem-se especificamente a Pedro, à sua negação de Cristo e sua conversão...
É totalmente contrário ao sentido original da passagem... encontrar nela uma promessa de infalibilidade futura a uma sucessão de papas... Até o final do século XVII nenhum escritor sonharia com tal interpretação; todos eles, sem exceção – num total de 18 – explicam-na apenas como uma oração de Cristo para que o seu apóstolo não sucumbisse e perdesse inteiramente a sua fé na prova que teria de enfrentar em breve.[7]
Muitos outros eminentes historiadores e teólogos católicos poderiam ser citados do mesmo modo. Peter de Rosa acrescenta sua própria visão:
De acordo com os Pais [da Igreja], Pedro não tinha sucessor algum. Eles viam todos os bispos como sucessores dos apóstolos, não um bispo sucedendo um apóstolo apenas, neste caso, Pedro. Logo, eles não poderiam sequer ter aceito a alegação de que “o sucessor de Pedro” deveria dirigir a Sé em Roma.
Também já vimos que todas as declarações de doutrina, especialmente os credos, não vieram dos papas, mas dos concílios. Nos primeiros séculos jamais ocorreu aos bispos de Roma que eles pudessem definir doutrinas para toda a Igreja.[8]

Pedras Instáveis

Depois de ter prometido a Cristo na última ceia que preferia morrer a negá-lo, Pedro fez exatamente o contrário. “Então, começou ele a praguejar e a jurar: Não conheço esse homem!” (Mateus 26.74). Essa é uma negação completa do próprio Cristo e do cristianismo como um todo. Pedro era uma “pedra” muito instável para Cristo ter construído sobre ele a sua Igreja! Porém seus supostos sucessores foram culpados de coisas ainda piores.
Já mencionamos uma porção deles. Consideremos brevemente mais um exemplo: o papa Júlio II (1503-1513), sifilítico e infame mulherengo, pai de inúmeros bastardos. Ele comprou sua posição no papado. Durante a Quaresma, enquanto os bons católicos faziam dietas rigorosas, ele se deleitava com ricas iguarias. Usando sua armadura, Júlio muitas vezes conduziu pessoalmente seus exércitos para a conquista de cidades e territórios, com o objetivo de expandir os Estados papais. Como poderia ser ele o vigário de Cristo, que afirmou que o Seu reino não era deste mundo e que por isso os Seus súditos não lutariam? Dizer tal coisa é zombar de Cristo e de Seus ensinos.

Sucessores de Imperadores

Lembre-se que nos primeiros tempos da Igreja a infalibilidade não era atribuída ao bispo de Roma, mas ao seu superior, o imperador. O papa Leão I (440-461), por exemplo, concedeu a um imperador incrédulo a mesma infalibilidade que Pio IX persuadiu os membros do Vaticano I a declararem ter sido sempre o poder exclusivo dos papas. Leão I disse: “Pela inspiração do Espírito Santo o imperador não necessita de instrução humana e é incapaz de cometer erros doutrinários”.[9]
O rasgado louvor que transcrevemos a seguir soa como aquele que hoje é dado aos papas, mas trata-se de um discurso de Eusébio, honrando o imperador pagão Constantino depois que este assumiu a liderança da Igreja:
Deixemos, então, que apenas o Imperador... seja declarado digno... livre... estando acima da sede de riquezas, superior ao desejo sexual... que dominou as paixões que sobrecarregam o restante dos homens; cujo caráter é formado conforme o original divino do Supremo Soberano, e cuja mente reflete, como num espelho, a radiação de Suas virtudes. Além disso, o nosso imperador é perfeito em prudência, bondade, justiça, coragem, piedade, devoção a Deus...”[10]
Esse louvor era apenas para o imperador, que o colocava acima do bispo de Roma, o qual lhe era subordinado. Assim, Constantino chamou a si mesmo “bispo dos bispos”. Hoje os papas que ostentam os títulos de Constantino e desfrutam de suas regalias são seus legítimos sucessores e não os sucessores de Pedro. O historiador Will Durant mostra que “durante a duração de seu reinado, ele [Constantino] tratava seus bispos como auxiliares políticos; os convocava, presidia seus Concílios e concordava em apoiar qualquer opinião que a sua maioria formulasse”.[11]
A doutrina nada significava para Constantino – apenas que os bispos deveriam concordar com ele pelo bem da unidade imperial. Peter de Rosa cita um bispo do século IV: “A Igreja [naquele tempo] fazia parte do Estado”. Ele continua explicando:
Mesmo o bispo de Roma – que não foi chamado de “papa” por muitos séculos – era, em comparação [com Constantino], uma pessoa sem importância. Em termos civis, era um vassalo do imperador; em termos espirituais, quando comparado a Constantino, era um bispo de segunda classe...
Não o papa, mas ele [Constantino], assim como Carlos Magno mais tarde, era o cabeça da Igreja, sua fonte de unidade, diante de quem o bispo de Roma tinha de se prostrar e declarar lealdade. Todos os bispos concordavam que ele [o Imperador] era o “oráculo inspirado da sabedoria da Igreja”.
Portanto, era Constantino e não o bispo de Roma quem ditava o tempo e o local dos sínodos da Igreja e até mesmo estipulava como os votos seriam dados. Sem a sua aprovação, eles não seriam legalizados; ele era o único legislador do Império.[12]

A Herança Pagã do Papado


A idéia de um Concílio da Igreja foi inventada por Constantino, o qual, apesar de sua professa “conversão” a Cristo, continuou sendo pagão.
A idéia de um Concílio da Igreja foi inventada por Constantino, o qual, apesar de sua professa “conversão” a Cristo, continuou sendo pagão. Ele jamais renunciou à sua lealdade aos deuses pagãos, jamais aboliu o altar pagão de Vitória, no Senado, nem o das virgens Vestais; e o deus-Sol, não Cristo, continuou a ser honrado nas moedas imperiais. Ele só foi batizado pouco antes de sua morte, e mesmo assim, por Eusébio, um sacerdote ariano herege. Durant nos revela que durante toda sua vida “cristã” Constantino usava tanto os ritos pagãos como os cristãos e continuava a confiar em “fórmulas mágicas para proteger as colheitas e curar doenças”.[13]
O fato de Constantino ter assassinado todos os que pleiteavam o seu trono [notoriamente seu filho Crispo, um sobrinho e um cunhado] é uma evidência ainda maior que sua “conversão” ao cristianismo era, como têm sugerido os historiadores, uma astuta manobra política. O historiador e padre católico Philip Hughes nos lembra: “Em seus atos, ele [Constantino] permaneceu sendo até o final de sua vida o mesmo pagão de sempre. Seus ataques de fúria, a crueldade que, uma vez despertada, não poupava nem a vida de suas esposas e filhos, são... um desagradável testemunho da imperfeição de sua conversão”.[14]
Os três filhos “cristãos” de Constantino (Constantino II, Constâncio II e Constanço), asseguraram, após a morte de seu pai, a posse de suas regiões separadas do império depois de um massacre implacável da família. Eles conseguiram levar a “cristianização” do Império a um patamar ainda maior. Foram eles, (e não Pedro) os antecessores dos papas da atualidade.
Como já foi dito, Constantino convocou, estabeleceu o que seria discutido, fez o discurso de abertura e desempenhou um papel proeminente no primeiro Concílio Ecumênico da Igreja, o Concílio de Nicéia, e também em uma porção de concílios, assim como faria Carlos Magno, 500 anos depois. Tendo em vista que os imperadores convocavam os concílios, não é de admirar que nenhum dos que foram realizados nos primeiros 1000 anos tenha reconhecido o bispo de Roma como cabeça da Igreja.
Cristo exemplificou a humildade e serviço aos outros. Ele disse aos Seus discípulos: “Os reis dos povos dominam sobre eles, e os que exercem autoridade são chamados benfeitores. Mas vós não sois assim; pelo contrário, o maior entre vós seja como o menor; e aquele que dirige seja como o que serve” (Lucas 22.25-26). Esquecendo essa admoestação, os papas imitaram os imperadores pagãos, de quem herdaram sua posição e poder.
Cristo também condenou a posição autoritária exercida pelos rabinos em Seus dias. Suas palavras aos líderes da religião judaica são deveras apropriadas à hierarquia católica romana:
Amam o primeiro lugar nos banquetes e as primeiras cadeiras nas sinagogas, as saudações nas praças e o serem chamados mestres pelos homens. Vós, porém, não sereis chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos. A ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele que está nos céus...
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia... por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade” (Mateus 23.6-9; 27-28). (Dave Hunt - http://www.chamada.com.br)

Notas

  1. Austin Flannery, O.P., (editor geral), Vatican Council II: The Conciliar and Post Conciliar Documents (Costello Publishing, 1988, Revised Edition) vol 1, p. 454.
  2. J. H. Ignaz von Dollinger, The Pope and the Council (London, 1869), p. 74.
  3. Peter de Rosa, Vicars of Christ: The Dark Side of the Papacy (Crown Publishers, 1988), pp. 24-25.
  4. Dollinger, op. cit., pp. 53, 66, 74.
  5. Cormenin, History oft he Popes, p. 243, citado em R.W. Thompson, The Papacy and the Civil Power (New York, 1876), p. 248.
  6. August Bernhard Hasler, How the Pope Became Infallible (Doubleday & Co., Inc., 1981), p. 8 da introdução.
  7. Dollinger, op. cit., pp. 65-66.
  8. De Rosa, op. cit., p. 250.
  9. H. Chadwick, The Early Church (Wm. B. Eerdmans, 1976), p. 245.
  10. Eusebius, Oration on the Tricennalia of Constantine, 5.4.
  11. Will Durant, The Story of Civilization (Simon and Schuster, 1950), Part III "Caesar and Christ, p. 656.
  12. De Rosa, op. cit., p. 43.
  13. Durant, op. cit., Part III, p. 656.
  14. Philip Hughes, A History of the Church (London, 1934), vol. 1, p. 198.
Dave Hunt (1926-2013). Devido a suas profundas pesquisas e sua experiência em áreas como profecias, misticismo oriental, fenômenos psíquicos, seitas e ocultismo, realizou muitas conferências nos EUA e em outros países. Também foi entrevistado freqüentemente no rádio e na televisão. Começou a escrever em tempo integral após trabalhar por 20 anos como consultor em Administração e na direção de várias empresas. Dave Hunt escreveu mais de 20 livros, que foram traduzidos para dezenas de idiomas, com impressão total acima dos 4.000.000 de exemplares.


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